sexta-feira, 22 de abril de 2011

Conto: O exaltado será humilhado!

   
       Seu João Venta-grande sentou do lado de um senhor bem mais caipira e aparentemente, também, bem menos experiente que ele. Seu Pedro Chapéu-de-palha, um homem simples, com cara de trabalhador estava descansando, mascando seu fumo, esperando o tempo passar. João começa a contar vantagem:
      - Eu, tenho dez cabeças de gado. Elas me rendem muito dinheiro. Vocês não sabem o quanto é difícil ter que administrar toda essa fortuna. Não é a toa que elas ficam espalhadas pelos meus treze hectares. Minha previsão desse ano é ter quinze cabeças de gado. Umas vaca lá estão buchudas. Estou louco que elas tenham logo os bezerrinhos para aumentar a minha produção.
      - Que bom, compadre. Vejo que o senhor é um homem de sorte. Já pode ser considerado um homem rico. Eu também tenho algumas cabeças de gado, mas não são lá muita coisa.
Nessa hora, João aspirou mais ar do que normalmente e a inveja subiu a sua cabeça:
      - Cê tem quantas cabeças de gado?
      - Ah! A última vez que fui lá tinha umas cinco mil cabeças de gado somente. Até tinha sumido algumas, mas era porque estavam dando cria. Meu terreno não é tão grande. Elas fogem lá dentro e meu caseiro, sendo um só, não consegue achá-las.
      João Venta-grande não se conteve e insistiu na conversa:
      - Quantos hectares o seu terreno tem?
      - Ah! A última vez que medi tinha bem pouquinho. Uns cento e quarenta hectares. Pretendo aumentá-los. Comprei algumas fazendas vizinhas. Ai sim o terreno vai ficar grandão.
      O invejoso apenas tinha uma admiração excessiva pelo nosso humilde proprietário de terras, mas não sabia toda a história deste mísero homem. Era um dos três filhos de um grande empresário e quando este morreu, deixou três bens: Um apartamento muito luxuoso beira-mar, Uma cobertura muito espaçosa no bairro nobre e uma pobre fazenda no interior do interiorzinho do estado. Os outro dois irmãos mercenários passaram a frente de Pedro e ficaram com os outros dois patrimônios. O nosso recente, ou quase, herdeiro não rejeitou a pequena fazenda que não agradava a ninguém. Viu nela uma oportunidade. E era. Os outros dois irmãos não conseguiram passar a diante os apartamentos e tiveram que vendê-los para se sustentar. O coronel ou doutor, se preferirem, começou com algumas vacas magrinhas. Fez um investimento aqui, outro ali. Um pouco de sorte, uma pitada de visão empregatícia e estava feita a receita para o sucesso. Enriqueceu, mas seu jeito modesto não se esvaiu. Agora os outros dois irmãos pediam ajuda ao fazendeiro que pareceu tão burro na sua decisão, mas que na verdade foi o mais sábio. Fez dinheiro trabalhando e honestamente. E o Venta-grande não sabia de nada disso. Apenas queria contar vantagem. Cuidado! Olhe-se no espelho. Talvez você teja uma protuberância nasal!

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