sexta-feira, 15 de abril de 2011

Capítulo 4 - A saudade asfixiante - Amores de uma vida I

        Nós ficamos na mesma turma. Eu, logicamente, transbordei de felicidade. Seria um ano que estaríamos mais próximos e já tínhamos até combinado grupos e trabalhos juntos. Havia uma possibilidade dela se mudar, mas parecia distante. Eu, enfim, estava com ela de novo. Estudávamos juntos, ríamos juntos, mas agora sem tanta pressão, sem tanto romantismo, sem tantas indiretas. Eu já havia me acostumado com a ideia de que seríamos somente amigos ou quase. As confidências já não mais me importunavam. Apenas faziam-me sentir mal por algum tempo, mas logo retomava a consciência de tudo. Dava aquele frio na barriga, sensação de algo perdido. Mas lá, bem no fundo, eu acreditava que ainda poderia dar certo. Apenas me tornei um pouco mais realista.

Como tudo que é bom dura, pouco, logo recebi a notícia de que ela iria se mudar e isso abalou com as minhas estruturas. O sentimento apaziguado que senti deu lugar ao verdadeiro amor romântico que sempre passeou a minha volta. Alguns dizem que quando perdemos ou estamos prestes a perder algo, valorizamo-lo mais. Eu acho que foi isso que aconteceu. Todo o amor, aquele primeiro amor, havia voltado e muito mais forte. O medo de perdê-la pra sempre, de nunca mais vê-la, nunca mais abraçá-la, me atemorizava. Tentei aproveitar o máximo, mas não pude evitar e ela se foi. Eu pensei que nunca mais veria ela de novo. E agora, no momento, era o que eu queria. Alguns dias depois dela ir, percebi que aquele amor, aquela obsessão só me fazia mal. Tentei esquecer, tentei me concentrar nos estudos, gostar de outras garotas e até funcionou por algum tempo. Mas foi somente falar com ela de novo para eu desistir desta ideia. Havia encoberto todo o sentimento novamente, mas agora ele havia se voltado contra mim. Parecia que a distância não podia apagar o meu amor. Alimentava-o ainda mais. Pude amá-la mais que nunca, apesar de longe. Ainda que sofresse com tudo o que aconteceu, no conflito dos meus pensamentos, nenhum momento tive coragem de contar. Eu podia amá-la sem ter uma interrupção ou decepção. O medo de ser rejeitado era algo que sempre tomava conta de mim. Até que tive alguma ponta de iniciativa, mas coragem, mesmo, de tomá-la nos braços e olhá-la no fundo dos seus olhos, nunca. Tive vontade. Mas coragem, mesmo, de me aproximar de seu ouvido e sussurrar que a amava, nunca. A minha veia romântica e nostálgica sobressaiu-me e falou mais alto que eu: tive que contar toda a verdade explicitamente.

Agora estava pagando pela minha frouxidão. Agora tive coragem e resolvi criar uma chance. Percebi que precisava contar mais cedo ou mais tarde. Precisava me libertar de tudo. E que mal iria fazer? Eu estava longe dela. O máximo que me podia acontecer era deixarmos de nos falar. Contei. E como contei. Disse tudo de uma vez, sem dúvida, sem pestanejar. Ela, ironicamente, me disse que já sabia e nunca entendi o porquê que ainda me ficava torturando se nós podíamos, pelo menos, ter tentado ser feliz alguma vez. Fiquei indignado. Achava que ela deveria ter tirado tudo a limpo. Até que ela passou na minha cara que era eu quem devia ter me apresentado para ser seu súdito para sempre. E lembrei do dia no parque de diversões.  E a frouxidão me doía mais uma vez nos ossos. Foram precisos alguns dias de conversa para esclarecermos alguns detalhes e fatos que não foram ditos. Esvaziei todo o reservatório de anos sem confissões, de anos de sentimentos contidos, de anos de indolência. Achei mesmo que, desta vez, viveríamos bem, felizes para sempre. Pena que não foi assim. Todo o meu amor se afundou em meu coração mais uma vez e passei a sentir apenas uma amizade superficial. Não mais por falta de coragem, mas agora por impotência  para fazê-la volver os olhos para mim. E ainda um fato novo mudou todo o campo de batalha e precisei me adaptar: Ela estava namorando e havia, de fato, alguém novo em sua vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário