domingo, 22 de julho de 2012

Lembranças corrompidas

Fotografias não traduzem o que sentimos no momento.
O pulsar do coração mais forte;
O cheiro das pessoas, das coisas;
O som, o ruído de tudo à nossa volta;
São características única do momento.
Pra quê tiramos fotografias, afinal?
Para lembrar de quem somos.
Para lembrar daquela menina que estudou junto conosco.
Para recordar de como estávamos bonitos naquele dia.
Para recordar que foram momentos bons aqueles.
Para relembrarmos de tudo o que passamos.
Para vivermos.
Fotografias não traduzem o que pensamos no momento.
As nossas avaliações ficam somente na nossa cabeça.
Os julgamentos dos outros ficam somente na cabeça deles.
São características únicas do momento.
Para que tiramos fotografias, afinal?
É melhor deixarmos os outros, os que não estão nas fotos,
Tirá-las.
É melhor vivermos o momento, o que não volta mais,
E mais nada
O que é mais valioso?
Recordar, mas saber que não viveu até os últimos segundos de entusiasmo
Ou tirar tudo de bom que aquele momento nos traz e ter uma vaga lembrança?
O mais valioso é vivermos sem nos preocuparmos.
Jogue pro alto tudo que te prende.
Queime as fotografias que odeias.
Destaque as que tu adoras.
Peça para outros tirarem suas fotografias.
Respire enquanto tens vida.
Viva enquanto tiveres tempo.
Ame enquanto tens alguém para amar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Conversar, sensibilidade e paradoxo

É.. As pessoas costumam falar de tantas coisas no dia-a-dia. Coisas sem importância. Coisas sem fundamento. Qual a vantagem de falar em moda se o importante é se sentir bem com você mesmo? Qual a vantagem de falar de obrigações se o falar não resolve nem diminui nenhuma delas? Qual a vantagem de se lamentar por algo que perdeu se as lágrimas não trazem de volta aquilo que se foi? É... é uma tendência humana. Gostamos de render, de sofrer; de falar. Pra quê conversamos? Na verdade, não queremos ouvir ninguém. Queremos ser ouvidos. É como se fosse um contrato em que precisamos trocar um pedaço de tempo escutando para ganharmos nosso espaço para falarmos. Há os que são ricos de espírito. Que ouvem em abundância, aprende no silêncio e, por isso, são virtuosos. Os falantes, os impetuosos, os escandalosos são inseguros. Precisam de alguém para lhes dar atenção. Geralmente, quando se calam, há algo de errado que não deveria haver. Não me excluo desse segundo grupo. Falo bastante, confirmo. Mas, à cada dia que passo, busco a serenidade, busco ouvir as pessoas de verdade e não somente balançar a cabeça esperando um breve suspiro para encher o outro com palavras. Mas há algo de bom em conversar. Trocamos informações, histórias  ou mesmo angústias que parecem diminuir quando vemos que outro passa por apuros. O humano vive de excrementos. Precisa ver que o vizinho passar por apuros para aliviar a amargura da sua própria vida. Mas há quem realmente se compadeça das situações alheias. São poucos, afirmo, mas existem. Contudo, vivem amargurados, não aprenderam que o mundo é cruel e não há espaço para tantas sensibilidades. Ser sensível é próprio do gene recessivo. Tento me calar o máximo que posso. Não reprimir ideias porque, quando são fortes demais, não aguento em mim. Tento, sim, ser sensível. Não sensível de fresco, mas de perceptível. Não quero depender do repugnante estado de alguém para me satisfazer. Pretensão minha querer fugir á regra humana. Porém o que é o ser humano se não um paradoxo ambulante.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Capítulo 13 - A amizade desfalcada pelo amor - Amores de uma vida II

   Um amigo meu - os do contra sempre vêm dos nossos - me chamou no canto. Ao contrário do primeiro lá, esse era um amigão, irmão mesmo. Na verdade, fazia muito tempo que não o via. Éramos inseparáveis quando criança. Corríamos de um lado para o outro como se a vida estivesse resumida às pequenas competições e descobertas fúteis infantis. Quando reavistei a minha amada, reencontrei junto meu velho amigo que só me fez lembrar de recordações ingênuas e melancólicas. Não atentei para o fato de que ele já desfrutava da companhia dela à muito tempo antes que eu. Talvez tenha passado despercebido pela alta confiança e pela própria nostalgia instaurada no momento. Sempre chegava a mim com seus casos fantásticos, sempre melhores que os meus; sempre querendo contar vantagem. Contudo, não sentia nem inveja, nem raiva. Com tantos anos de convivência, aprendi que, no mínimo, eram exageradas e sempre sabia que o caso era sempre menos do que ele me contava. Dessa vez, ele veio confessar algo e me pedir ajuda. Parece que quando alguém nos surpreende com algum pedido inesperado, nós fazemos uma retrospectiva de todos os acontecimentos já vividos com o pedinte; uma espécie de revisão de dados ou uma ficha criminal, para, só então, julgá-lo e decretarmos se vale a pena ou não. Ele só tinha pontos comigo por isso desarmei o alarme. Talvez tenha sido precipitado. Confessou que estava apaixonado pela minha escolhida e queria que eu falasse com ela para ver se tinha alguma chance. Por ironia ou não, veio pedir justo a mim! Sempre o destino sendo sarcástico, devo odiá-lo? No primeiro momento, me senti traído. Ora, nunca se espera que um amigo de tantas décadas venha nos apunhalar pelas costas. Mas logo me desfiz desse sentimento. Não havia o alertado antes. Não poderia cobrar algo que ele não me devia. E também porque eu já sabia a resposta. Lembro-te que já tinha me tornado íntimo daquela que era meu alvo. Todavia, separo bem as coisas. Gostava dela, sim, mas não podia ser infiel ao meu grande amigo. Prometi que falaria com ela, mas não podia garantir nada. Ele disse que somente eu falando já estava de bom tamanho. Eu já sabia da decepção previamente, porém eu havia prometido falar claramente e perguntá-la e era isso que eu ia fazer. Julguei que seria uma competição justa, afinal, quem deveria escolher era ela. Também não podia ser desleal à ele que sempre me teve como parceiro e esteve comigo em tantos momentos. Num dia em que as conversas com ela perambulavam pelo âmbito sentimental, soltei a tal confissão. Eu mesmo não havia me confessado, mas somente em levar o recado, me senti constrangido. Soltei, mas soltei em tom de negativa. A ideia, ao princípio, era de lealdade, mas não consegui, por insegurança, levá-la até o fim. Fulano está apaixonado por você. Você não vai aceitar, vai? Ela soltou uma gargalhada para a minha surpresa. Surpresa foi o sentimento que defini pra ele na verdade. Ela disse que ele era muito infantil e que preferia meninos mais maduros que pudesse ter algo pra oferecer. Me senti aliviado por mim, mas triste por ele. De certa forma, torcia pela felicidade dele, mas era egoísta demais para insistir com ela. Que ótimo amigo eu sou! Ao menos, de certa forma, ele teve a sua chance. Ela não era tão volúvel a ponto de mudar de opinião por causa da minha negativa. Apesar que, agora, havia alguém apaixonada por mim e sabia que não era fácil a situação dele. Lembro-te e te asseguro que conseguia compreender a situação com amplo entendimento. Vi nele todas as minhas decepções, uma normalidade característica do desprezo feminino. Inclusive, vi a decepção anterior. Entendi a natureza trágica, sarcástica e sombria do amor não correspondido. Vi nela a não possibilidade da criação desse sentimento. Ele não se cria em cativeiro. É algo muito mais complexo, que não podemos dominar. Está muito mais para o instinto do que para a racionalidade. Vi, nela, a espontaneidade e que também quem rejeita sofre em partes. Me tranquilizei ao saber que a concorrência estava liquidada. Contei vantagem antes do tempo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Capítulo 12 - Outro começo, outro amor - Amores de uma vida II

        Lembro-me muito bem do dia em que nos encontramos. Achei-a bonita. Fazia tempo que não a via. Encontrei-a na igreja depois de tantos anos sem seu convívio. Sei que lá não é lugar para essas coisas, mas quem mais senão Deus para entender como surge o amor nos homens? Conheci ela bem antes de me despertar para o amor. Ela ia passar as férias na casa da prima e encontrava-me às vezes. Era franzina nem tinha tantos traços notáveis. Trocávamos algumas poucas palavras talvez pela idade ou pelo pouco vocabulário em construção. Mas agora estava diferente. Os novos ares longe de mim a fizeram muito bem. Estava, agora, com novas formas, novos trejeitos, nova personalidade. Alegrou-se bastante ao me rever, o que foi recíproco. O que mais achei engraçado é que ela, logo que me viu, disse meu nome e eu não lembrava o seu de jeito nenhum. Fingiremos que ainda não lembro o nome dela. Só assim te contentarás com o fato de não saberes, leitor curioso. A minha tática mudou de coração, mudou de alvo, mas continuou a mesma paradoxidamente. Me aproximei buscando somente uma amizade, mas, no fundo, queria me apaixonar novamente. Não me julgem mal pelas minhas falcatruas, mas era, sim, para a esquecer a primeira lá que já não te lembras bem. Ficávamos mais íntimos a cada dia e já contava os meus segredos, inclusive da minha decepção recente. Achei que, assim, ganharia a confiança dela e daria aquela brecha que eu queria para encontrar outro amor. E ela estava reagindo bem. Também começou a contar seus probelmas, suas dúvidas e anseios. Havia uma amiga dela que comecei a conhecer pela aproximação excessiva. Como os segredos já naquela época não eram resistentes à nossa amizade, logo fiquei sabendo que essa amiga dela estava gostando de mim. Meu tiro saiu pela culatra. Não que essa conhecida não merecesse o meu amor ou ser amada, mas meu alvo era outro. Eu estava decidido para quem eu devia me declarar. Eu não estava muito acostumado em ter alguém apaixonada por mim. Eu estava do outro lado da realidade. Na maioria das vezes, era eu quem me declarava, era eu quem me apaixonava e nunca ao contrário. Adorei e odiei a ideia ao mesmo tempo. Adorei porque era fruto dos sonhos de alguém, mas odiei por não corresponder. Adorei porque estava sendo tido como algo bom - minha nova carapaça estava funcionando -, mas odiei porque não era a minha escolhida quem me declarava amor. Soube disso, mas preferi fingir que não entendi muito bem ou algo do tipo. Hoje vejo a cena como algo cômico. Eu querendo conversar com a minha amada e a amiga dela querendo conversar comigo. Que triângulo engraçado! Se tu, leitor amigo, conhecesse os três indivíduos que o formavam, irias rir todo por dentro. O amor tem esse efeito nas pessoas. Deixa-as anestesiadas para a realidade. Chegava ser até ridículas as nossas atitudes de cobrança de atenção. Apesar da amiga, não desisti da minha conquista. Queria ela e somente ela. Encarei a amiga como a pedra que o destino quis colocar no caminho. O tão sarcástico destino! Era como se ele quisesse me mostrar como é ser alvo dos desejos de alguém e não poder corresponder. Que droga! Estava me tornando mais compreensivo com a primeira que não me pôde fazer juras de amor...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

I love tu


É muito bom ouvir uma música arquitetada; Uma melodia bem construída;
Mas as melhores músicas são feitas em picos de inspiração,
Em clímax de pensamentos, nas suas reflexões ao tomar café da manhã..
É muito bom ir ás compras;
Olhar milhares de roupas, experimentar muitas pra, na maioria, levar uma e olhe lá.
Mas as melhores roupas lhe chamam atenção,
Ocorre um sentimento; um afeto não corriqueiro.
É muito bom ir a vários restaurantes,
Provar de tudo um pouco, ter seu dia de degustador,
Mas as coisas mais saborosas são lhe oferecidas no súbito;
Quando alguém coloca o garfo em sua boca;
Quando alguém susurra no seu ouvido perguntando se gostou.
É muito bom procurar a menina perfeita;
Se divetir com as erradas, levar fama de pegador,
Mas é perfeito quando ninguém marca o momento.
Quando você olha pra ela e ela pra você,
Quando o amor chega sem aviso prévio;
Quando a vida junta dois corações.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Tudo mundo gosta de em pizza

        Fulano queria ser médico. Não pelo dinheiro, mas porque queria ajudar as pessoas. Estudou, se formou e foi exercer o cargo em um pronto-socorro particular. Estava adorando a profissão. Apesar de seus plantões, estava realizado por enfim estar ajudando as pessoas a se tratarem. Até que um homem chegou num de seus plantões. Ele era pobre. Foi atendido com os procedimentos triviais, mas morreu na maca porque não tinha dinheiro para custear os tratamentos daquele hospital tão requisitado. Aquilo era demais para o nosso médico. Se revoltou com a medicina por ter se vendido tão injustamente. Viu-se incapaz de cumprir o que se propunha. Preferiu mudar de profissão.
        Fulaninho - como era chamado por alguns íntimos - resolveu ser advogado. Não pelo dinheiro, mas porque queria se empenhar em defender os inocentes. Estudou, se formou e foi exercer o carga num desses escritórios que conhecemos. Conseguiu alguns casos e estava contente com o progresso de todos até que um homem chegou e se sentou no tal escritório do nosso advogado. A causa do cliente estava certa. Mas ele não tinha como pagar ao recém formado em direito. Fulaninho acompanhou o caso de longe. Envolvia gente da alta sociedade e é claro que aquele mísero homem não conseguiu vencer. O dinheiro falou mais alto. Fu teve desgosto de seu cargo. Resolveu mudar de profissão.
        Colocaram na cabeça dele que deveria ser político. Ele resolveu seguir a carreira não pelo dinheiro, mas porque queria realmente defender o povo. Essa foi fácil para o nosso futuro parlamentar. Alguns discursos, promessas que talvez não fossem cumpridas. Venceu no primeiro turno. Foi para a sua sala confortável. Tinha trabalho? Muito. Mas preferia se preocupar com seus problemas pessoais. No início, até tentou cumprir com seu objetivo honesto, mas se envolveu em alguns projetos, esses que nunca terminam, e resolveu aceitar a gentileza de seus superiores que lhe presenteavam com alguns mimos. Se envolveu em alguns trambiques. Mas estava satisfeito. O que podia fazer? O sistema o corrompeu. Não quis mudar mais de emprego. Antes, preferiu mudar de caráter...

PS: Se você exece um desses cargos e não tem essa atitude, não se ofenda. A crítica é somente para os que não cumprem com seu dever.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Literatura e amor: tudo a ver

    E eu que pensei que literatura não pudesse ser tão reflexiva...Na maioria das vezes, é bastante. Mas, dessa vez, foi demais. Me peguei novamente pensando nela no meio da aula. Tenho que parar com isso. Dessa vez, falávamos sobre Clarice Lispector, a dama da terceira fase do modernismo.Viajei nas reflexões e no meu pão. Estava com tanta fome. Fome de ver e de comer. Apesar da fome incomum, a aula não estava monótona. Meu professor é desses que consegue prender a atenção de todos. Invejem-no. Voltando a tal dama, achei que Clarice é estúpida. Não se pode amar alguém que escreve com ideias tão desordenadas. É confuso, é efuso, é constrangedor não entendê-la. Ainda mais quando ela mergulha no universo feminino. Comecei a gostar de Clarice por causa disso, porque odiar, de fato, eu já odiava. Lembrei da minha metade por causa do universo tão sarcástico que a autora propõe para nós como sendo feminino. Lembrem-se: é preciso conhecer para dominar. Me vali deste tão consagrado ditado e resolvi dar uma chance a essa clarice que me cegava os olhos. Elas só querem ser desejadas. No fundo, se resume a isso. Mas isso é tão abrangente... Fazer a minha amada se sentir assim não é tão fácil. Nem jogarei o desafio a ti. Estarias morto se tentasse me superar no meu labutar diário. Mas Macabeia... Pelo amor de Deus! Nem forçando saía amor. Aliás, não se pode fazer isso. Mas minha epifania foi mais marcante do que a dos meus companheiros. Aconteceu dentro de mim. Vi na morte de Macabeia, a morte de um pouco de mim. Não, eu não sou desgraçado de masculinidade. Mas percebi que até agora eu vivia, vivia e vivia sem me dar conta de que existia. E conclui melhor que Descartes: Se penso nela, logo eu existo. Ficou melhor assim, não é? Se não achou, tenho certeza que és ou machista demais ou cético demais. Dentro de mim começou um conflito sobre quem eu realmente sou e o que quero ser. Cheguei a conclusão. Sou de Deus, mas quero ser somente dela, nada mais. Isso seria rejeitar a Deus? Não seria aceitá-lo no último estado de sanidade que o homem possa chegar. Me tornaria um só com ela. E a morte? Prefiro deixar Macabeia morrer só. Me desculpem mas já tenho outro amor. Se ela morresse, eu ainda tinha morangos pra colher. Claro que antes disso passaria por um estado de insanidade que não sei até que ponto chegaria. Mas a hora da estrela é você que escolhe. Escolha viver hoje. Abra os olhos. Faça a imagem chegar na retina. Deixa a luz penetrar pela pupila. Veja. Não esqueça do amanhã. Mas veja. Viver só por viver está fora de moda.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

História e amor: tudo a ver

        E eu que nem esperava uma reflexão tão profunda. História é por si só reflexiva sempre, mas alguns professores insistem em fazer reflexões superficiais. O meu não. Eu, que, especialmente hoje, estava feliz por causa de uma pessoa especial, me peguei pensando nela no meio da aula de história. Talvez não fosse certo perder meu foco assim, mas você sabe como é quando se está apaixonado. Mas dessa vez a minha fuga momentânea teve o seu motivo. Falávamos de filósofos. Mais especificadamente, São Tomás de Aquino e São Agostinho. Homens ilustres. Ideias ilustres. Grandes reformadores. Talvez você não quisesse saber da minha apaixonite tão imprópria para quem quer ler sobre História. Mas entenda que esse foi meu pretexto e está tudo amarrado pelo contexto que logo entenderás.
        Esses dois filósofos medievais beberam lá da antiga reflexão grega que estamos acostumados a ouvir: Platão e Aristóteles. Agostinho se identificou com Platão e Aristóteles com Tomás. Platão pensa que existia dois campos, dois mundos pelos quais as nossas ideias eram suspensas. Um era o mundo sensível, o mundo onde tudo era perfeito e o outro o mundo concreto, o nosso mundo que refletia o tal mundo perfeito que existe no campo das ideias, imperfeitamente. Já Agostinho, sacerdote resignado de seus prazeres e diversões, escreve em Confissões um teorema clássico deste típico tipo de texto. Mostra o quão era vadio e o quando melhor ele ficou depois que conheceu a Cristo. Com isso, se mostra-se incapaz de receber a salvação por merecimento, mas explicita a graça de Deus que no seu clímax de piedade, olhou-o com compaixão e resolveu mudar sua vida. Seria Deus quem nos escolheu e estávamos predestinados a sermos salvos. Depois escreveu sobre a cidade de Deus e a cidade dos homens. Nós temos que imitar a "sociedade" celestial. Típicamente platonista. Percebemos claras pontes entre estes dois gênios. E como eu e minha amada nos encaixamos nessa história? Eu e ela tentamos, de modo bem simplório, imitar aquele amor tão perfeito que idealizamos. No meu coração e no dela - claro domínio das ideias-, temos esse amor perfeito, essa dádiva que mais parece divino do que humano. Mas a nossa capa nos permite errar sobre esse amor e torná-lo mais nosso e trazê-lo para o campo real. Está ai a maestria de se viver. Amar com amor perfeito seria fácil, mas o nosso desafio é vencer o campo real e entrarmos, os dois, conectados no campo das ideias. Ainda penso que estávamos predestinados a nos amar...
     Desculpe a você que estava lendo o texto para saber sobre os filósofos. Em respeito a vocês, voltarei ao que me propus anteriormente...Tomás era totalmente diferente do nossos amigos sonhadores. Resolveu estatizar os poderes. Organizar os postos eclesiásticos, cada um com sua hierarquia para que funcionasse como um organismo, uma corporação, uma cooperação. Aristóteles pensou parecido. Regulamentou - digamos assim - as matérias nomeando-as e tornando a compreensão do estudo e suas áreas de maneira mais simplória. Usamos suas definições até hoje. Tiramos algumas ciências - a poesia... pura prentenção nossa - e adicionamos outras, pela própria construção do saber. Tomás, que bebeu da fonte aristotélica, nos deixou um legado de livre arbítrio, de livre escolha.  E mais uma vez minha fuga se fez na mente. Pensei que somos livres em amar quem quisermos amar. E fiquei feliz porque ela escolheu a mim para depositar todos os seus sonhos e seus pesadelos.
    A reflexão é que os dois parecem opostos, mas acho que se complementam. O amor de Deus é sublime sendo o amor dos homens um reflexo desse amor maior. Estamos predestinados a amar aquela que amamos porque não controlamos muito bem o que sentimos ou para quem o coração vai acelerar. Estamos predestinados a sermos salvos por Deus. Mas a escolha e aceitação se faz presente. Se não quisermos a Deus, é impossível que se estabeleça a relação. Se não quisermos nos relacionar com determinada pessoa, isso não vai acontecer. Às vezes, fatores como distância ou inconstância nos impede de amar alguém com todas as forças. Prefiro essa História do que apenas aquela de datas e fatos...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Capítulo 11 - O término esperado - Amores de uma vida I

      Voltei à minha vida cotidiana, mas não a tirava da cabeça. Pensava em possibilidades, em outras chances, mas nada parecia acontecer. Continuamos nos comunicando e cada vez mais a saudade apertava. Talvez antes de vê-la, pudesse suportar a saudade. Mas, agora, lembro-te que a vi, ela me viu, e percebi que nada mudou ou pelo menos eu achava que nada tinha mudado. Percebi que eu teria uma chance, sim, se estivesse ao seu lado. Detesto lançar cantadas. Prefiro mostrar poemas, músicas, mas detesto galantear alguém com frases tolas. Mas elas parecem inevitáveis às vezes. Lançava todo o meu charme, as melhores palavras, os melhores poemas, meus melhores pesamentos, minhas melhores músicas. Compus outra música na intenção de ganhá-la mais rápido, apesar de que ainda ela estava presa ao baixinho ciumento. A primeira, aquela que te falei no início, ela havia perdido na mudança. Também nem estava tão boa assim. Com essa outra, eu esperava atalhar o caminho do coração dela, mostrar o quanto vazio eu era sem ela e mais: dar um golpe de rasteira no tal namorado. A música era assim:  


"Eu vagava pelo mundo porque queria te esquecer,
Eu queria esquecer de tudo,
Das coisas que lembram você, mas não dá! Mas não dá!
Se lembra daquele muro que eu esperava você passar
Ou ficava no telefone, esperando você ligar,
Me aceitar! Me aceitar!
Aceita o meu amor que hoje venho pra te dar.
Aceita esta flor que acaba de brotar.
A primavera vem, ao teu lado quero estar.
Se você não ficar comigo, com quem vou ficar!
Eu não consigo nem tenho como, o meu amor, não posso controlar.
Só te peço, me dá uma chance. Quero fazer teu mundo parar!  
Te amar! Te amar!
Eu espero você de noite, de dia, em todo lugar.
Tento te esquecer. Não posso!
Pra quê eu fui te amar?  Te amar! Te amar!"


Podem fazer suspiros longos! Estava realmente apaixonado. A reação dela foi a esperada. Achou linda, mas não caiu de amores. Talvez pela minha imaturidade e pelo amor que já se instalou em meu peito por todos esses anos, cobrava dela a posição de  estar apaixonada por mim ou não. É, às vezes, eu esquecia que ela estava namorando ainda e queria que ela se decidisse a qualquer custo. Estava um pouco cansado de suspirar, esperar, amar alguém que talvez por acaso algum dia poderia me corresponder. Juntamente com essa pressão, houve ainda um mal entendido; um falha na comunicação. Esqueci, uma única vez, de consultar o manual de instruções dela que sempre carreguei comigo todos esses anos. Ela disse que faria um determinado penteado - bem diferente acreditem - e me pediu a opinião. Brinquei, disse que aquele corte era bastante ousado para a sua personalidade tão respeitável. Realmente era somente uma brincadeira. Achei que aquilo passaria como tantas outras brincadeiras que já fiz. Mas não passou. Esqueci de ler, lá no manual, a frase: deixe claro, muito claro, claríssimo suas opiniões em relação ao cabelo dela. Tanta foi a minha pressão e insistência que aconteceu a última coisa que eu queria que acontecesse. O cabelo só foi a fagulha para explodir o que já vinha sendo contido. Fui carinhoso como sempre. Fiz cantaroladas como de costume, apesar de detestar. Ela, dessa vez, não aderiu ao meu espírito shakespeareano. Me deteve nas elevações, nos meus suspiros, nas minhas frases que não saíam mais da minha mente, mas do profundo do meu coração. Disse para eu seguir com a minha vida e me conformasse; que estávamos longe para termos algum relacionamento. Apunhalou-me dizendo que só me tinha como amigo e que não deveria me iludir e que estava com alguém e que eu deveria fazer o mesmo. Escarniou-me dizendo que eu tinha mudado e a opinião sobre o cabelo evidenciava ainda mais que estávamos distantes de sermos um só. Lembro-te que um reino dividido não subsistirá, segundo as sagradas escrituras, e que, se começássemos pensando diferente, seria o pressuposto para não durarmos muito juntos. Afirmou que ela também havia mudado e que não era; repito; não era a menininha que conheci a tantos anos, nos meus tempos áureos. Ouvi tudo atentamente, analizando cada palavra, buscando uma saída para tanta pedra na nascente do meu rio que havia sido o mais duradouro até agora. Um ego ferido não é lá algo que consigas reter sozinho. Não escapei à regra. Retruquei, depois de um longo silêncio:


   - Se mudei e você mudou, o que temos em comum?
É melhor pararmos de nos falar. Não nos conhecemos!
   - Se quiser conversar, ainda estarei aqui.


   Estava muito mal. Andava falando com uma desconhecida e nem sabia. A menininha para quem eu escrevia as músicas não era a mesma. Ela havia ficado diferente. Nem parecia que era a mesma que adorou me ver, que não se importava em ser vista pelo namorado comigo e que havia me abraçado forte naquele dia. Percebi que tudo foi em vão e que não era ela quem eu amava mais. Era esse sentimento que se instalou na hora da explosão. Amava somente sua projeção. Amava o meu passado. Aquele primeiro amor me tirava agora meu coração.  Não culpe-me, caro leitor. Ela cresceu e estava diferente. Não tive participação nisso. Assim como não podia culpá-la porque eu também não era o mesmo. Eu não era aquele frouxo que não aproveitou os poucos segundos que lhe foram dados. Mas eu nunca me conformei com fins trágicos. Sempre aprendi que a vida era dura, mas não admitia isso pra mim. Entenderás que aquele mesmo sarcasmo temporal se fez aqui também e que tudo isso foi necessário para amá-la ainda mais. Por enquanto, porém, esquece-a, a partir de agora, assim como eu a esqueci. Todos os pronomes do caso reto femininos terão outros significados daqui pra frente. Apagues tudo o que vistes para entender o meu amor subsequente. Poupe-me de cronologias. Não sei a partir de quando comecei a esquecer uma e amar outra, mas os próximos pronomes já sabes: serão de outra dona.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Costumes pouco prováveis

Eu acho que me acostumei a não mais te amar.
Viver sem teu carinho, sem teus beijos.
Sem horas de suspiros nem sucções nos meus ouvidos.
Sempre detestei tudo isso...
Eu acho que me acostumei a ser somente teu amigo,
Ter abraço incompletos, afetos superficiais.
Me acostumei a não mais te querer
Enxerguei defeitos onde não haviam,
Escamas nas aves, verruga na Estátua da Liberdade.
Você não era boa o bastante pra mim..
Acostumei a não sentir teu cheiro,
Senti o cheiro do esgoto do outro quarteirão,
Preferi me poupar de poucos segundos de êxtase.
Acostumei a não ter você.
Já passei de fase, já virei a página, já enterrei o que estava morto.
Queria chamar você a qualquer hora,
Mas tive que entender que não sou dono do teu coração.
Nem queria que estivesse do meu lado mesmo.
Queria te aprisionar para que fosse minha pra sempre
Mas tive que entender que grades não prendem corações
Nem algemas seguram aqueles que não querem ser presos.
Mas também nem queria seu corpo junto do meu
Muito menos ouvir aquela doce voz toda manhã.
Nem tão pouco queria sentir o cheiro que me prendeu por anos a você.
No fim de tudo, vejo um vazio. Um espaço. Um nada.
No fim de tudo, vejo a imensidão. A solidão. O sofrimento.
Está bom. Eu confesso.
Percebo que não, eu não me acostumei a não ter você na minha vida;
Preciso dizer isso com todas as palavras...
Não ter o teu sorriso toda manhã;
É, você é perfeita e tenho que admitir
Não ter tua mão na minha;
É, você sabe que ainda as mãos suam quando te vejo
Não me acostumei a não poder te amar!