domingo, 22 de julho de 2012

Lembranças corrompidas

Fotografias não traduzem o que sentimos no momento.
O pulsar do coração mais forte;
O cheiro das pessoas, das coisas;
O som, o ruído de tudo à nossa volta;
São características única do momento.
Pra quê tiramos fotografias, afinal?
Para lembrar de quem somos.
Para lembrar daquela menina que estudou junto conosco.
Para recordar de como estávamos bonitos naquele dia.
Para recordar que foram momentos bons aqueles.
Para relembrarmos de tudo o que passamos.
Para vivermos.
Fotografias não traduzem o que pensamos no momento.
As nossas avaliações ficam somente na nossa cabeça.
Os julgamentos dos outros ficam somente na cabeça deles.
São características únicas do momento.
Para que tiramos fotografias, afinal?
É melhor deixarmos os outros, os que não estão nas fotos,
Tirá-las.
É melhor vivermos o momento, o que não volta mais,
E mais nada
O que é mais valioso?
Recordar, mas saber que não viveu até os últimos segundos de entusiasmo
Ou tirar tudo de bom que aquele momento nos traz e ter uma vaga lembrança?
O mais valioso é vivermos sem nos preocuparmos.
Jogue pro alto tudo que te prende.
Queime as fotografias que odeias.
Destaque as que tu adoras.
Peça para outros tirarem suas fotografias.
Respire enquanto tens vida.
Viva enquanto tiveres tempo.
Ame enquanto tens alguém para amar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Conversar, sensibilidade e paradoxo

É.. As pessoas costumam falar de tantas coisas no dia-a-dia. Coisas sem importância. Coisas sem fundamento. Qual a vantagem de falar em moda se o importante é se sentir bem com você mesmo? Qual a vantagem de falar de obrigações se o falar não resolve nem diminui nenhuma delas? Qual a vantagem de se lamentar por algo que perdeu se as lágrimas não trazem de volta aquilo que se foi? É... é uma tendência humana. Gostamos de render, de sofrer; de falar. Pra quê conversamos? Na verdade, não queremos ouvir ninguém. Queremos ser ouvidos. É como se fosse um contrato em que precisamos trocar um pedaço de tempo escutando para ganharmos nosso espaço para falarmos. Há os que são ricos de espírito. Que ouvem em abundância, aprende no silêncio e, por isso, são virtuosos. Os falantes, os impetuosos, os escandalosos são inseguros. Precisam de alguém para lhes dar atenção. Geralmente, quando se calam, há algo de errado que não deveria haver. Não me excluo desse segundo grupo. Falo bastante, confirmo. Mas, à cada dia que passo, busco a serenidade, busco ouvir as pessoas de verdade e não somente balançar a cabeça esperando um breve suspiro para encher o outro com palavras. Mas há algo de bom em conversar. Trocamos informações, histórias  ou mesmo angústias que parecem diminuir quando vemos que outro passa por apuros. O humano vive de excrementos. Precisa ver que o vizinho passar por apuros para aliviar a amargura da sua própria vida. Mas há quem realmente se compadeça das situações alheias. São poucos, afirmo, mas existem. Contudo, vivem amargurados, não aprenderam que o mundo é cruel e não há espaço para tantas sensibilidades. Ser sensível é próprio do gene recessivo. Tento me calar o máximo que posso. Não reprimir ideias porque, quando são fortes demais, não aguento em mim. Tento, sim, ser sensível. Não sensível de fresco, mas de perceptível. Não quero depender do repugnante estado de alguém para me satisfazer. Pretensão minha querer fugir á regra humana. Porém o que é o ser humano se não um paradoxo ambulante.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Capítulo 13 - A amizade desfalcada pelo amor - Amores de uma vida II

   Um amigo meu - os do contra sempre vêm dos nossos - me chamou no canto. Ao contrário do primeiro lá, esse era um amigão, irmão mesmo. Na verdade, fazia muito tempo que não o via. Éramos inseparáveis quando criança. Corríamos de um lado para o outro como se a vida estivesse resumida às pequenas competições e descobertas fúteis infantis. Quando reavistei a minha amada, reencontrei junto meu velho amigo que só me fez lembrar de recordações ingênuas e melancólicas. Não atentei para o fato de que ele já desfrutava da companhia dela à muito tempo antes que eu. Talvez tenha passado despercebido pela alta confiança e pela própria nostalgia instaurada no momento. Sempre chegava a mim com seus casos fantásticos, sempre melhores que os meus; sempre querendo contar vantagem. Contudo, não sentia nem inveja, nem raiva. Com tantos anos de convivência, aprendi que, no mínimo, eram exageradas e sempre sabia que o caso era sempre menos do que ele me contava. Dessa vez, ele veio confessar algo e me pedir ajuda. Parece que quando alguém nos surpreende com algum pedido inesperado, nós fazemos uma retrospectiva de todos os acontecimentos já vividos com o pedinte; uma espécie de revisão de dados ou uma ficha criminal, para, só então, julgá-lo e decretarmos se vale a pena ou não. Ele só tinha pontos comigo por isso desarmei o alarme. Talvez tenha sido precipitado. Confessou que estava apaixonado pela minha escolhida e queria que eu falasse com ela para ver se tinha alguma chance. Por ironia ou não, veio pedir justo a mim! Sempre o destino sendo sarcástico, devo odiá-lo? No primeiro momento, me senti traído. Ora, nunca se espera que um amigo de tantas décadas venha nos apunhalar pelas costas. Mas logo me desfiz desse sentimento. Não havia o alertado antes. Não poderia cobrar algo que ele não me devia. E também porque eu já sabia a resposta. Lembro-te que já tinha me tornado íntimo daquela que era meu alvo. Todavia, separo bem as coisas. Gostava dela, sim, mas não podia ser infiel ao meu grande amigo. Prometi que falaria com ela, mas não podia garantir nada. Ele disse que somente eu falando já estava de bom tamanho. Eu já sabia da decepção previamente, porém eu havia prometido falar claramente e perguntá-la e era isso que eu ia fazer. Julguei que seria uma competição justa, afinal, quem deveria escolher era ela. Também não podia ser desleal à ele que sempre me teve como parceiro e esteve comigo em tantos momentos. Num dia em que as conversas com ela perambulavam pelo âmbito sentimental, soltei a tal confissão. Eu mesmo não havia me confessado, mas somente em levar o recado, me senti constrangido. Soltei, mas soltei em tom de negativa. A ideia, ao princípio, era de lealdade, mas não consegui, por insegurança, levá-la até o fim. Fulano está apaixonado por você. Você não vai aceitar, vai? Ela soltou uma gargalhada para a minha surpresa. Surpresa foi o sentimento que defini pra ele na verdade. Ela disse que ele era muito infantil e que preferia meninos mais maduros que pudesse ter algo pra oferecer. Me senti aliviado por mim, mas triste por ele. De certa forma, torcia pela felicidade dele, mas era egoísta demais para insistir com ela. Que ótimo amigo eu sou! Ao menos, de certa forma, ele teve a sua chance. Ela não era tão volúvel a ponto de mudar de opinião por causa da minha negativa. Apesar que, agora, havia alguém apaixonada por mim e sabia que não era fácil a situação dele. Lembro-te e te asseguro que conseguia compreender a situação com amplo entendimento. Vi nele todas as minhas decepções, uma normalidade característica do desprezo feminino. Inclusive, vi a decepção anterior. Entendi a natureza trágica, sarcástica e sombria do amor não correspondido. Vi nela a não possibilidade da criação desse sentimento. Ele não se cria em cativeiro. É algo muito mais complexo, que não podemos dominar. Está muito mais para o instinto do que para a racionalidade. Vi, nela, a espontaneidade e que também quem rejeita sofre em partes. Me tranquilizei ao saber que a concorrência estava liquidada. Contei vantagem antes do tempo.