Fiz a prova no dia seguinte despreocupado, apesar de estar encrencado por não ter lido, até o final, o livro obrigatório para a prova. Não havia tido tempo nem para pensar direito, colocar as ideias no lugar, quem dirá ler aquele livro de quase duzentas páginas! Acordamos muito cedo. Ainda estava pra conhecer para onde ela havia se mudado. Lembrei-me de toda a tristeza que foi perdê-la para aquele lugar. Lembrei-me quase que por tabela do motivo que a trouxe para ali. Um desarranjo em sua família, uma amante, uma "umazinha" qualquer, uma sirigaita tinha acabado com toda a família feliz dela. Infelizmente, não poderão mais colocar todos em uma foto só. Existe ainda ódio demias para que se suportem. Quem sabe um dia? Mas a beleza, o frio, as pessoas faziam, sim, daquele lugar um ambiente, no mínimo, agradável para se viver - prefiro minha terra de altos coqueiros! Muito mais pela beleza do que pelas pessoas. Estávamos prestes a começar a fazer a prova. Um orgulho subiu em nossos corações. Representar algo, alguém ou seu colégio nos faz sentir bem, uma sensação de dever cumprido aliado também ao peso da grande responsabilidade que é estar nesta posição. Esquecemos de tudo o que não foi feito. O nosso foco estava na prova.
Ou melhor, deveria ser esse o único foco. Mas, mesmo na prova, pensava nela, se a veria de novo, aquelas perguntas que estavam ecoando em minha mente desde o último encontro. O concurso me cobrava maior atenção e tentei, realmente, dar o melhor de mim. Mas estava entre as razões, os motivos, os argumentos de meus textos e as emoções, sentimentos e sensações que ela me causava. Eu confiava no destino. Me sentia merecedor de vencer mesmo sem saber o que os outros passaram para estar ali - Arrogância clara da minha parte! A formalidade daquele ambiente nos fazia crer que realmente estávamos num concurso. A prova passou se arrastando. Cada segundo parecia que se estendia mais que o normal. A ansiedade de sair dali para saber o resultado e/ou vê-la de novo me consumia. Terminamos a prova. Não foi tão rápido assim! Foi chato o bastante para não ter o que escrever sobre! No dia seguinte, fomos receber os resultados. Se iam chamando um a um para receber as medalhas e cada vez que era dito o nome da nossa cidade, um grito unânime, por parte dos habitantes é claro, ecoava no ginásio. Mas foram-se passando colocação por colocação e nenhum de nós havia logrado êxito. Bronze, nenhum. Prata, muito menos. Começaram-se os ouros até que foi anunciado um dos nossos. Um grito de fim de copa do mundo se impôs no ginásio. Mas não era eu quem estava recebendo. E continuou-se os anúncios e mais um foi premiado. Um grito de ganhador de carnaval carioca se impôs, novamente e mais forte, no ginásio. Mas ainda não era eu. A essa altura, ainda esperava que o destino me recompensasse. Mas aquele frio no ventre característico de tristeza, aquele choro querendo sair, aquele olhar de cachorro pedinte já se fazia presente em meu ser. Chegaram ao pódio. Somente o primeiro lugar era da nossa cidade. Era a minha apoteose ou decadência. Outro grupo ganhou. Chorei de emoção, de tristeza, de orgulho, de tristeza, de alegria e também de tristeza. Não havia prêmio nenhum físico, mas o fato de realmente, paupavelmente, não ter nem recebido medalha me encheu de melancolia. De repente, aquele prêmio teve importância. Talvez pelo fato de eu não ter ganhado. Parabenizei os vencedores. Realmente foram melhores. Passei a não crer mais em destino. Nessa hora, toda a minha maturidade se tornou questionável. Queria voltar para casa como quando brigava na rua. Como quando discutia feio com alguém. Queria descontar na porta toda a minha fúria e deitar e derramar todo o líquido do meu corpo pelos olhos no travesseiro. Mas estava longe de casa. Muito longe por sinal. Teria que encarar a situação de frente, querendo ou não querendo. Houve algumas comemorações após a "premiação".
Eu só pensava em sair dali, voltar para a minha cidade, minha terra. Estava cabisbaixo, desapontado comigo mesmo. Mas o que mais eu queria? Não havia estudado nem tão pouco me importado em não ter estudado. Os outros realmente mereciam. O que me restava era aproveitar o restante da viagem. Engraçado que, quando imaginei a viagem, fantasiei com duas coisas que logo tornaram frustrações: Os beijos dela - meu feliz para para sempre - e o prêmio da olimpíada. Senti-me como se o mundo todo fosse desabar. O que é um homem sem o amor de sua donzela e o reconhecimento de seu intectuo? Esqueci dela, da minha frouxidão, do dia no parque, do meu esforço para viajar. Tudo se fez fora do sentido. Era como se não fosse para eu estar ali. Entreguei os pontos. Achei que nada mais iria acontecer. Mas me enganei. Algumas surpresas me agardavam. O mesmo destino que me afundou num mar de melancolia estava sendo somente irônico comigo. De cético, acreditei nele de novo! Ainda me despediria dela novamente.
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