segunda-feira, 25 de julho de 2011

Capítulo 8 - Entre encontros I - Amores de uma vida I

       Continuei o concurso, mas agora com um sorriso bobo no rosto. Tinha ficado mais tímido se comparado àquele dia no parque de diversões. As minhas mãos ainda soavam mesmo depois dela já ter partido. Não me perdoava por aquilo. Mais uma vez eu deixei uma chance preciosa passar. Lembrei-me de uma vez quando fiz meu aniversário de 11 anos. Foi a última festa, que fiz com todos os requisitos, da qual tenho lembrança. Chamei-a, mas não acreditava muito que viria. Todos os meus amigos estavam lá. A festa já tinha começado. Havia programado vários momentos para a festa. Quando eu ouvi do primeiro andar da minha casa uma buzina incomum, corri, desci as escadas e constantei: ela tinha, sim, vindo. Eu parecia não acreditar no que estava vendo. Separei duas cadeiras, bem no meio do salão, sem querer. Logo deixei de lado todos os projetos, todo o cronograma da noite. Todos estavam se divertindo, mas não se continham ao fato de que eu gostava dela. Era visível. E todos ficavam debochando, pedindo para eu apresentar ela, mas não queria que eles revelassem os meus defeitos. Preferia que ela os descobrisse depois das minhas qualidades. Passamos a festa toda conversando. Eu, falava sempre entre um suspiro e outro, entre uma risada e outra. Quando chegou a hora de ir embora, se despediu e subiu no carro do pai. Eu fiquei na porta, bobo, descrente daquela cena. Imaginei que, no futuro, seria o inverso: eu, dirigindo o carro, e o pai dela bobo no portão. Quando voltei à festa, já se prevê o que aconteceu. Todos fizeram chacota e a alegria e o falatório durou ainda alguns dias. E aquele mesmo olhar de menino, o mesmo retardamento, o mesmo encantamento, parecia ter me tomado outra vez. Parecia que não havia acontecido de verdade. Sempre levo um pouco mais de tempo do que as pessoas, no geral, para acreditar em algo que é muito bom pra mim. Parecia que eu tinha acabado de acordar daqueles sonhos que queremos retardar. Esses dois momentos se fundiam no seguinte ponto: pareciam não ter acontecido. Mas tinha quase certeza que nunca mais a veria. Aquela euforia, no meu ver, estava com os dias contados e, provavelmente, não teria outra oportunidade daquela. Acreditei quando me falaram que dois raios não caem no mesmo lugar. O que eu podia fazer? Voltei a estudar. Ainda tinha um concurso para ganhar, uma batalha para vencer. Meu capricho trouxe uma obrigação, uma responsabilidade. Mas estava sem cabeça para ler livros, para estudar literatura, para aprender. As frases lidas na banca daquela biblioteca sempre eram interrompidas pela imagem do seu sorriso, pela sensação de tocá-la, pelo seu cheiro ao abraçar. Me ajeitava na cadeira, respirava fundo, tentava mesmo me concentrar. Mas as cenas que haviam acontecido estavam ecoando na minha mente. Cada gesto, cada fala, cada risada estavam gravadas, cravadas lá. A minha inquietação estava clara. Ainda mais clara que o meu sorriso bobo. Queria contar, gritar para o mundo que havia encontrado o meu grande amor de novo, mas precisava fazer silêncio. Estava na biblioteca. Ouvi alguns cala-boca. Mas me sentia como que uma montanha de fogos de artificio estivessem dentro de mim e precisavam ser disparados. Que tolice a minha! Estava tão alegre, tão sorridente, mas estava esquecendo o óbvio. Ao mesmo tempo que estava encantado, estava reflexivo. Eu a veria de novo? É quase impossível ver eclipses seculares mais de uma vez na sua vida. Ainda sabia que estava com alguém, o que dificultava ainda mais uma tomada de posição da minha parte. Um alguém que fiz questão de esquecer porque, ao avaliar o meu grande dilema, estava claro que não poderia perder a chance. Azar o dele se era o namorado dela quando tive essa chance. Ele era como uma pedra no meu sapato. Conseguia caminhar rumo ao amor, mas sentia os efeitos dolorosos que ele me causava. Nada contra ele. Não odiava ele. Odiava ele ser o namorado dela. É bem diferente. Dúvidas ainda rondavam a minha cabeça. Aquela visita tinha sido misteriosa o bastante para tirar meu sono naquela noite. Misteriosa, sim, porque ainda não sabia a opinião dela - o que mais importava a mim naquela hora.Veria ela de novo? Ela havia gostado da carapaça? A pedrinha iria me incomodar ainda mais? Iria ser feliz para sempre? Adormeci com o gosto doce do seu beijo em minha boca.

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