sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Capítulo 10 - O Reencontro - Amores de uma vida I

        Depois da entrega dos "prêmios", resolvemos relaxar para tirar a tensão daquele dia bom para alguns e ruim para outros. Eu nem estava com vontade de ir, mas estávamos em outra cidade! Iria me arrepender depois se não fosse. Prometi algumas lembrancinhas para algumas pessoas queridas. Ela havia me dito que talvez fosse, mas não era nada certo. Deixei-a livre porque a amava demais. Se ela queria ficar com ele, tudo bem. Eu havia passado meio país para vê-la, mas o que isso valia? Difundimo-nos entre os compradores e, assim como os nossos interesses, seguimos as mais diferentes direções. No início, fiquei com um pequeno grupo, mas a necessidade de me sentir livre fez eu me isolar, mesmo estando "preso" ou limitado naquele lugar e estando totalmente envolvido por pessoas; outras pessoas. Andei de loja em loja buscando os tais presentinhos prometidos. Quase me arrependi de ter prometido. Uma única lágrima contida fazia-me focalizar nesta busca por completo. Queria esquecer de todos os acontecimentos anteriores. Tentava demonstrar que estava tudo bem pra todos, mas algo me corroía por dentro. Não sei descrever muito bem o que sentia. Era um misto de tristeza com nostalgia; angústia e decepção. A minha busca incessante pelos presentinhos era somente um pretexto para procurar um presente específico. Procurava em todos os rostos um conhecido. Queria me despedir dela descentemente. Tive, por várias vezes, a impressão de ter a visto, mas só foram impressões equivocadas. Deu-me fome. Precisava comer algo. Nem tinha almoçado. Agora, além de um vazio cardíaco, um estomacal resolveu querer suplantar o primeiro. Claro que não conseguiu. Quando estamos tristes, as necessidades da mente - no caso, coração - parecem que se tornam superiores às outras necessidades e tornam as outras supérfluas. A fome se torna um detalhe no meio de tanta nostalgia.
 A praça, onde eram oferecidos os mais diversos alimentos, estava completamente lotada. Era um dia de descanso e lazer para todo mundo. Fui uma por uma, oferta por oferta, sugestão por sugestão. Passei por uma sala onde assistia-se filmes e tive mais uma impressão daquelas que quase me infartaram. Mas, desta vez, meus olhos não me enganaram. Era ela, sim! Estava linda, arrumada. Diferente do dia anterior, mas perfeita como sempre. Agora, estava mais descansada, mais harmônica, mais apaixonante. Estava conversando com um homem e logo entendi que se tratava do que tinha roubado ela de mim, por quem eu tinha, de uma certa forma, um respeito de rival. Se tratava do namorado dela. Era bem diferente de como tinha imaginado. Bem diferente de todas as formas que eu, ou minha mente, lhe havia atribuído. Fui me aproximando e fiz questão de olhar pra ela. Ele, de costas, nem notou que eu lhe roubara, por um instante, a atenção de sua amada. Fingi ir comprar numa das lojas e antes que eu chegasse lá, ela caminhou do meu lado. Queria abraçá-la, mas ela fez sinal para eu continuar andando. Imediatamente, a mensagem foi recebida e logo executada. Parei na tal loja que eu iria usar de pretexto anteriormente e ela seguiu outro caminho. Quando olhei para o local onde a vi antes e vi ele sozinho, entendi que era por causa dele que não demonstramos afeto mútuo. Ele estava bem atrás de nós quando estávamos caminhando juntos. Se abraçasse ela ali, ela teria que dar explicações longas, gastar toda a sua lábia advocacional - se é que a tem - para convencê-lo a prossegui no relacionamento. Senti-me como que fosse o amante, mesmo sem ter feito nada de errado. Na verdade, nem vi a cara do sujeito. Mas respirei aliviado. Eu, talvez, não fosse tão superior, mas sabia que ele também não era. A única coisa que ele tinha em vantagem era morar na mesma cidade que ela. Falei com ela e marcamos um lugar para nos encontrarmos. Suava frio como da primeira vez. O destino havia nos juntado de novo. Ele estava sendo sarcástico e bondoso comigo ao mesmo tempo. Ele sabia ser comedido em todas as suas ações.  
Fui chegando perto dela e tentei transparecer calma, tranquilidade quando, na verdade, queria correr o mais rápido que pudesse. Abracei-a, mais forte do que na primeira vez. Aspirei o máximo de ar junto dela para que o perfume dela permanecesse por mais tempo nas minhas narinas. E que cheiro! Era um cheiro que me fazia flutuar. Era quase que uma droga para o meu coração tão esperançoso, tão paciente, tão fadigado por tantos anos longe da autora dos seus sentimentos mais fortes, mais intensos, mais românticos. Podia passar horas, dias, anos cheirando seu perfume ou até a vida toda... Como o destino foi escarniático comigo! Conversamos um pouco. Rimos um pouco. Nos aproximamos menos ainda! O fato daquele ser o ambiente mais visitado pelos amigos dela e, pior, pelos dele fez-nos manter uma certa distância. Ela tentou racionificar essa atitude. Disse que ele era atreito a ciúmes. Brinquei logo com as palavras dela. Falei sobre falta de confiança e mais algumas coisas. Afirmei que comigo seria diferente porque eu confiava, confio, nela e ela confiava, confia em mim. Não sei ao certo se surtiu muito efeito minha tentativa de sedução com estas palavras hábeis. Pra completar todo o sarcasmo, toda a brincadeira dos astros,  um encontro com outra conhecida fez com que interrompêssemos a conversa - mais do que já estava sendo interrompida- e fez-me apenas segui-la, apenas admirá-la. Elas estavam andando, mas eu não sabia para onde. Chegamos na frente de uma loja de grande fama por seus tecidos e elas pararam. Eu parei junto. Fiquei só a espreitar. A conhecida se foi. Ela se voltou pra mim e disse que o namorado estava lá dentro a esperando. Disse-me que sentia por não termos tanto tempo juntos. E que ele estava apressado.
Abraçou-me e disse que quando eu fosse lá, passar mais tempo, iríamos nos divertir muito e que adorou me ver.  A adoração à minha presença me fez gravar no meu coração a essencialidade de voltar para lá de novo; de sentir aquele êxtase pelo resto da vida. Abraçamo-nos forte e não queríamos largar-nos. Disse-a que ele podia nos ver. Ela disse que nem se importava. As expressões "adorei te ver" e "e nem me importo" pareceram resistentes ao tempo. Ecoaram na minha cabeça ainda por alguns longos dias. De vez em quando, ainda as escuto em alguma noite fria, numa manhã linda - mais especial do que o normal - para se apreciar ou quando estou de frente pro mar lembrando da minha saudosa menina... Desapeguei dos seus braços. O aderente que nos uniu por algum tempo teve que se desfazer. E a vi, mais uma vez, caminhando para o nada, se misturando no meio das pessoas. Mais uma vez me senti um brinquedinho do destino, uma marionete, um fantoche. Eu fiquei bem melhor,sim, mas ainda estava desapontado. Não havia recebido o que eu queria. Vê-la uma vez mais tinha sido somente um paliativo para toda a minha dor. Voltei para casa. No desembarque, tinha uma festa para os que ganharam. Saí pela culatra. Já não bastava a minha tristeza? Aquela festa afirmava e reafirmava que eu não havia ganho nada. Virou notícia em todo o estado a vitória dos meus companheiros. Tinha inveja? Não! Mas tudo aquilo assinava meu atestado de incompetência. Mas eu tinha visto ela e nada me tirava aquela alegria. Não era o que eu realmente queria? Me conformei com meu prêmio maior; com meu reencontro tão desejado; com o seu cheiro de novo nos meus pulmões. Tinha dúvidas do nosso futuro, mas queria viver cada tristeza de cada dia por vez. Preferi guardar na mente, lembrar a todo instante aqueles preciosos momentos que se tornaram tão eternos e ecoam até hoje.

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