A euforia do conhecimento do resultado do concurso logo se acabou. Outro fato me desanimou por completo: A fala de apoio financeiro do colégio. Não que eles não quisessem, mas não tinham como. Os gastos extras fizeram com que o impossibilitasse de nos garantir toda a viagem. Tivemos que procurar patrocínio externo. A dúvida se realmente iria vê-la ou não já me consumia e a quebra da possibilidade de ir pelo simples fato de apoio e não de capacidade, me irava. Pensei logo em todas as tardes que perdi, provas que fiz e, principalmente, na chance que iria perder. No começo, fiquei muito irritado com o colégio e não adimitia nenhuma desculpa. Aos poucos vi que realmente não era má vontade e, sim, falta de recursos mesmo! Procurei todos os meus contatos e amigos, vasculhando tudo, buscando qualquer ponta de esperança. E a achei. Um velho conhecido, com influência, podia nos ajudar, mas não era nada garantido. Foram precisos muitos vai-e-vem até chegar ao momento final, na decisão que daria uma chance de um, talvez, final feliz. Até que, perto do dia da viagem, conseguimos o tão esperado auxílio. Fizemos todo o processo, todos os requisitos.
A cada passo, a cada documento parecia que algo faltava. Sempre achava que iria acontecer alguma coisa e iria me impedir de ir. Talvez pelo fato de que ainda não tínhamos feito criar crédito que realmente iríamos. Já tinha viajado de avião, mas já fazia tempo. Nem me lembrava como era. Eu estava animado. Qualquer movimento ou momento era uma alegria, uma nova percepção, afinal, não é todo dia que o seu esforço pode ser recompensado. Tentei gravar em minha mente todas as imagens, todas as lembranças. A madrugada logo saiu para dar lugar à manhã tamanha era minha felicidade! Bom-humor, agora, já fazia parte, novamente, do meu cotidiano. Tudo era novo e especial. O frio daquele lugar era bem diferente do clima da minha terrinha totalmente aconchegante. As feições das pessoas eram bem diferentes das que eu estava acostumado. Os campos eram bem diferentes do mar que eu estava habituado a ver. Decididamente, me encontrava em outro lugar. Apesar de eu estar com uma boa quantidade de companheiros do colégio, me sentia sozinho, mergulhado em pensamentos. Perguntas como : "O que vai acontecer?" e "Como ela está?" rodeavam a minha cabeça, me afastando de toda a anarquia manifesta em nosso grupo. A comparação de onde eu vim com onde me achava se fez presente em todo o tempo. "Lá é assim!" e "Aqui é assim!" eram expressões que não saíam das nossas bocas, refletindo o verdadeiro impacto de se encontrar longe de casa. A distância da proteção assídua dos meus pais fez-me repensar em valores e ter uma maturidade imediata. Nunca tinha cuidado, diretamente, do meu dinheiro, sensação bastante prazerosa. 
Até aqui, ela não sabia de nada. Foi bem difícil e bastante rápido conseguir ir pra lá. E eu, estava tão feliz que nem me lembrei de contá-la. Ao relatar onde estava, a reação dela foi quase como a minha ao chegar lá: quase não cremos que tudo aquilo estava se sucedendo. Ao mesmo tempo que estava feliz, estava reflexivo. Ela tinha namorado e, por alguns momentos, quase esqueci deste pequeno detalhe. Não sabia até aonde ela iria. Se podia me beijar ou não, se faria algo ou respeitaria o fato de estar com ele. E eu ficava preocupado porque se ela ficasse comigo estaria traindo ele e não queria que isso acontecesse. Mas, ao mesmo tempo, não queria perder a oportunidade. Era eu ou ele. Era o meu grande dilema. Mesmo assim, marquei um dia para nos encontrarmos. O dia passou se arrastando e a hora de vê-la parecia quase não chegar. Olhava tanto pro relógio que até via as horas repetidas e as horas iguais aos minutos. Até que recebi um texto com uma única palavra: "Cheguei". Aquilo fez-me arrepiar todo. Enfim, era o momento tão aguardado! Um gelo tomou toda a minha espinha. Um calafrio percorreu todo o meu corpo. Eu estava prestes a abraçá-la de novo.

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