segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Capítulo 11 - O término esperado - Amores de uma vida I

      Voltei à minha vida cotidiana, mas não a tirava da cabeça. Pensava em possibilidades, em outras chances, mas nada parecia acontecer. Continuamos nos comunicando e cada vez mais a saudade apertava. Talvez antes de vê-la, pudesse suportar a saudade. Mas, agora, lembro-te que a vi, ela me viu, e percebi que nada mudou ou pelo menos eu achava que nada tinha mudado. Percebi que eu teria uma chance, sim, se estivesse ao seu lado. Detesto lançar cantadas. Prefiro mostrar poemas, músicas, mas detesto galantear alguém com frases tolas. Mas elas parecem inevitáveis às vezes. Lançava todo o meu charme, as melhores palavras, os melhores poemas, meus melhores pesamentos, minhas melhores músicas. Compus outra música na intenção de ganhá-la mais rápido, apesar de que ainda ela estava presa ao baixinho ciumento. A primeira, aquela que te falei no início, ela havia perdido na mudança. Também nem estava tão boa assim. Com essa outra, eu esperava atalhar o caminho do coração dela, mostrar o quanto vazio eu era sem ela e mais: dar um golpe de rasteira no tal namorado. A música era assim:  


"Eu vagava pelo mundo porque queria te esquecer,
Eu queria esquecer de tudo,
Das coisas que lembram você, mas não dá! Mas não dá!
Se lembra daquele muro que eu esperava você passar
Ou ficava no telefone, esperando você ligar,
Me aceitar! Me aceitar!
Aceita o meu amor que hoje venho pra te dar.
Aceita esta flor que acaba de brotar.
A primavera vem, ao teu lado quero estar.
Se você não ficar comigo, com quem vou ficar!
Eu não consigo nem tenho como, o meu amor, não posso controlar.
Só te peço, me dá uma chance. Quero fazer teu mundo parar!  
Te amar! Te amar!
Eu espero você de noite, de dia, em todo lugar.
Tento te esquecer. Não posso!
Pra quê eu fui te amar?  Te amar! Te amar!"


Podem fazer suspiros longos! Estava realmente apaixonado. A reação dela foi a esperada. Achou linda, mas não caiu de amores. Talvez pela minha imaturidade e pelo amor que já se instalou em meu peito por todos esses anos, cobrava dela a posição de  estar apaixonada por mim ou não. É, às vezes, eu esquecia que ela estava namorando ainda e queria que ela se decidisse a qualquer custo. Estava um pouco cansado de suspirar, esperar, amar alguém que talvez por acaso algum dia poderia me corresponder. Juntamente com essa pressão, houve ainda um mal entendido; um falha na comunicação. Esqueci, uma única vez, de consultar o manual de instruções dela que sempre carreguei comigo todos esses anos. Ela disse que faria um determinado penteado - bem diferente acreditem - e me pediu a opinião. Brinquei, disse que aquele corte era bastante ousado para a sua personalidade tão respeitável. Realmente era somente uma brincadeira. Achei que aquilo passaria como tantas outras brincadeiras que já fiz. Mas não passou. Esqueci de ler, lá no manual, a frase: deixe claro, muito claro, claríssimo suas opiniões em relação ao cabelo dela. Tanta foi a minha pressão e insistência que aconteceu a última coisa que eu queria que acontecesse. O cabelo só foi a fagulha para explodir o que já vinha sendo contido. Fui carinhoso como sempre. Fiz cantaroladas como de costume, apesar de detestar. Ela, dessa vez, não aderiu ao meu espírito shakespeareano. Me deteve nas elevações, nos meus suspiros, nas minhas frases que não saíam mais da minha mente, mas do profundo do meu coração. Disse para eu seguir com a minha vida e me conformasse; que estávamos longe para termos algum relacionamento. Apunhalou-me dizendo que só me tinha como amigo e que não deveria me iludir e que estava com alguém e que eu deveria fazer o mesmo. Escarniou-me dizendo que eu tinha mudado e a opinião sobre o cabelo evidenciava ainda mais que estávamos distantes de sermos um só. Lembro-te que um reino dividido não subsistirá, segundo as sagradas escrituras, e que, se começássemos pensando diferente, seria o pressuposto para não durarmos muito juntos. Afirmou que ela também havia mudado e que não era; repito; não era a menininha que conheci a tantos anos, nos meus tempos áureos. Ouvi tudo atentamente, analizando cada palavra, buscando uma saída para tanta pedra na nascente do meu rio que havia sido o mais duradouro até agora. Um ego ferido não é lá algo que consigas reter sozinho. Não escapei à regra. Retruquei, depois de um longo silêncio:


   - Se mudei e você mudou, o que temos em comum?
É melhor pararmos de nos falar. Não nos conhecemos!
   - Se quiser conversar, ainda estarei aqui.


   Estava muito mal. Andava falando com uma desconhecida e nem sabia. A menininha para quem eu escrevia as músicas não era a mesma. Ela havia ficado diferente. Nem parecia que era a mesma que adorou me ver, que não se importava em ser vista pelo namorado comigo e que havia me abraçado forte naquele dia. Percebi que tudo foi em vão e que não era ela quem eu amava mais. Era esse sentimento que se instalou na hora da explosão. Amava somente sua projeção. Amava o meu passado. Aquele primeiro amor me tirava agora meu coração.  Não culpe-me, caro leitor. Ela cresceu e estava diferente. Não tive participação nisso. Assim como não podia culpá-la porque eu também não era o mesmo. Eu não era aquele frouxo que não aproveitou os poucos segundos que lhe foram dados. Mas eu nunca me conformei com fins trágicos. Sempre aprendi que a vida era dura, mas não admitia isso pra mim. Entenderás que aquele mesmo sarcasmo temporal se fez aqui também e que tudo isso foi necessário para amá-la ainda mais. Por enquanto, porém, esquece-a, a partir de agora, assim como eu a esqueci. Todos os pronomes do caso reto femininos terão outros significados daqui pra frente. Apagues tudo o que vistes para entender o meu amor subsequente. Poupe-me de cronologias. Não sei a partir de quando comecei a esquecer uma e amar outra, mas os próximos pronomes já sabes: serão de outra dona.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Costumes pouco prováveis

Eu acho que me acostumei a não mais te amar.
Viver sem teu carinho, sem teus beijos.
Sem horas de suspiros nem sucções nos meus ouvidos.
Sempre detestei tudo isso...
Eu acho que me acostumei a ser somente teu amigo,
Ter abraço incompletos, afetos superficiais.
Me acostumei a não mais te querer
Enxerguei defeitos onde não haviam,
Escamas nas aves, verruga na Estátua da Liberdade.
Você não era boa o bastante pra mim..
Acostumei a não sentir teu cheiro,
Senti o cheiro do esgoto do outro quarteirão,
Preferi me poupar de poucos segundos de êxtase.
Acostumei a não ter você.
Já passei de fase, já virei a página, já enterrei o que estava morto.
Queria chamar você a qualquer hora,
Mas tive que entender que não sou dono do teu coração.
Nem queria que estivesse do meu lado mesmo.
Queria te aprisionar para que fosse minha pra sempre
Mas tive que entender que grades não prendem corações
Nem algemas seguram aqueles que não querem ser presos.
Mas também nem queria seu corpo junto do meu
Muito menos ouvir aquela doce voz toda manhã.
Nem tão pouco queria sentir o cheiro que me prendeu por anos a você.
No fim de tudo, vejo um vazio. Um espaço. Um nada.
No fim de tudo, vejo a imensidão. A solidão. O sofrimento.
Está bom. Eu confesso.
Percebo que não, eu não me acostumei a não ter você na minha vida;
Preciso dizer isso com todas as palavras...
Não ter o teu sorriso toda manhã;
É, você é perfeita e tenho que admitir
Não ter tua mão na minha;
É, você sabe que ainda as mãos suam quando te vejo
Não me acostumei a não poder te amar!